• Adriana Valadares

Criminalística não encontra solvente em cerveja citada na morte de PM em Juiz de Fora

A morte do militar aposentado Antônio Paulo dos Santos, 61, não foi resultado da ingestão de cerveja da marca Brussels. O Instituto de Criminalística (IC) esclareceu que a análise não detectou a presença de solventes ou substâncias tóxicas nas amostras da bebida alcoólica. O óbito do ex-policial ocorreu em 27 de maio no Hospital Albert Sabin, em Juiz de Fora, na Zona da Mata. Biópsia feita pela equipe médica da unidade de saúde o diagnosticou com insuficiência renal decorrente de intoxicação por dimetilglicol. Antônio foi intubado em um leito do Centro de Terapia Intensiva (CTI) em 14 de maio, e no período de 13 dias que ali permaneceu, amostras da cerveja que ele bebeu antes de apresentar os primeiros sintomas do quadro de falhas nos rins foram recolhidas pela Vigilância Sanitária do município.

O óbito após a internação prolongada por envenenamento pelo solvente dimetilglicol tornou-se alvo de investigação da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) perante a hipótese de que a substância estaria em dois latões de cerveja consumidos pelo policial entre 7 e 8 de maio. Como a criminalística indicou a inexistência de solventes da classe de glicóis na bebida ingerida por Antônio, será necessário aguardar o laudo da necropsia para confirmar o quê provocou a morte dele.

Por meio de nota, a delegada responsável pelo inquérito, Mariana Veiga, informou que "as investigações prosseguem no sentido de apurar a causa e as circunstâncias da morte de Antônio Paulo dos Santos".

Cronologia do caso

Um boletim de ocorrência foi registrado pela Polícia Militar (PM) após o óbito. Nele estão descritos os relatos do médico responsável por Antônio no Hospital Albert Sabin, e da mulher do militar aposentado. À corporação, ela disse que a Vigilância Sanitária de Juiz de Fora compareceu à residência da família e recolheu quatro latões da cerveja comprada pela vítima – dois deles já consumidos, e os outros dois lacrados. Antônio Paulo dos Santos foi diagnosticado com insuficiência renal e internado em um leito no CTI para hemodiálise depois de dar entrada na unidade de saúde em 13 de maio. Ele foi intubado no dia seguinte, e submetido a uma biópsia dois dias depois da hospitalização, em 15 de maio. Antes, o aposentado já havia procurado a emergência do Albert Sabin, em 9 de maio, quando foi diagnosticado com intoxicação alimentar, medicado e liberado.

À Polícia Militar (PM), para o registro da ocorrência, médicos às vésperas da morte dele relataram que não poderiam afirmar como ocorreu a intoxicação por dimetilglicol atestada pela biópsia. No dia do óbito, a equipe médica que o atendeu informou à PM que o ex-militar não respondia mais às funções cerebrais. Nota no boletim de ocorrência cita confirmação por envenenamento, "não se sabendo a origem, nem a autoria ou a fonte da referida intoxicação".


internação

As informações a seguir com detalhes sobre a internação de Antônio Paulo dos Santos estão contidas na ocorrência registrada pela Polícia Militar (PM) a pedido da direção do Hospital Albert Sabin.

9 de maio, domingo: na madrugada do Dia das Mães, o militar foi atendido na emergência médica da unidade de saúde com quadro característico de intoxicação alimentar. Medicado, foi liberado às 6h da manhã.

13 de maio, quinta-feira: Antônio retorna à emergência do Hospital Albert Sabin. Ele recebe diagnóstico de insuficiência renal – com quadro de vômito e impossibilidade de urinar. Foi diretamente levado para um leito no CTI e submetido a hemodiálise.

14 de maio, sexta-feira: no CTI, militar é intubado;

15 de maio, sábado: equipe médica solicita uma biópsia renal;

19 de maio, quarta-feira: resultado da biópsia indica intoxicação por dimetilglicol;

20 de maio, quinta-feira: família é informada sobre a gravidade do quadro de saúde do paciente e a respeita da conclusão da biópsia; Vigilância Sanitária é informada pelo hospital sobre a ocorrência;

27 de maio, quinta-feira: sem apresentar funções cerebrais, Antônio morre naquela noite após 14 dias de internação.


Informações da família

Após contato com o hospital, a Polícia Militar (PM) procurou a mulher de Antônio. Ela narrou os seguintes fatos à corporação:

7 de maio, sexta-feira: o marido disse a ela que almoçou dois pratos de feijoada na tarde de sexta-feira em um restaurante. Como de costume, antes de retornar para casa, ele foi até um supermercado e comprou ingredientes para preparar petiscos que degustariam juntos; ele também adquiriu quatro latas de cerveja da marca “Brussels”, cada um com 473 ml da bebida. Naquela noite, Antônio bebeu dois latões. A mulher dele também disse que seu marido tinha hábito de beber no período da tarde; entretanto, ela não sabe se ele ingeriu bebida alcoólica antes dos dois latões;

8 de maio, sábado: Antônio começa a se queixar de incômodos, e disse à mulher que estava se sentindo empanzinado pela feijoada do dia anterior;

9 de maio, domingo: às 2h da madrugada, o militar piorou e foi com a mulher para a emergência do Hospital Albert Sabin. Ele foi liberado às 6h, e medicado.

10, 11 e 12 de maio, segunda a quarta-feira: nos dias seguintes à ida à unidade de saúde, ele continuou incomodado com dores abdominais; segundo a mulher, Antônio comia pouco e conseguia ingerir apenas sopas e água.

13 de maio, quinta-feira: militar acorda com a "boca torta" e se contorcendo de dor; ela retorna com o marido para o hospital, e ele é internado.

20 de maio, quinta-feira: após a conclusão da biópsia, a mulher de Antônio é informada sobre diagnóstico de envenenamento por dimetil glicol. Àquele dia, a Vigilância sanitária recolheu as latas da cerveja.


Investigação

Amostras da cerveja Brussels consumida pelo ex-militar Antônio Paulo dos Santos foram recolhidas pela Vigilância Sanitária de Juiz de Fora, e encaminhadas para análise na Fundação Ezequiel Dias (Funed) em Belo Horizonte. O material foi repassado à Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) e a análise concluída nesta sexta-feira (11) – como citado anteriormente.

Indagado, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) disse, no início do mês, que não via relação direta entre a ingestão da cerveja da marca Brussels, que foi consumida pelo militar, e a morte dele. Por meio de nota, a cervejaria responsável pela Brussels já havia negado o uso de dimetilglicol na produção de bebidas alcoólicas. Representantes reforçaram que o resfriamento nos tanques de fermentação é feito com Álcool Etílico Potável, como é padrão entre cervejarias artesanais no Brasil.


Único óbito

O militar aposentado foi o único morador de Juiz de Fora internado com diagnóstico de intoxicação por dimetilglicol no mês de maio. A administração do município disse em nota que não houve nenhum caso parecido nos hospitais da cidade, “nos dias anteriores ou posteriores ao caso em questão”.


Produção permitida

Cervejas da Brussels não foram retiradas do mercado e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) pontuou que não recomendou a interrupção da fabricação da cerveja, assim como não expediu determinação para inspeção nas instalações da indústria.


Cervejaria não usa substâncias químicas inapropriadas

Procurada no início do mês, a marca Brussels negou o uso de dimetilglicol em qualquer etapa da produção de cervejas na fábrica instalada no município de Cláudio, na região Centro-Oeste de Minas. “Não fazemos uso de nenhuma outra substância em qualquer parte do processo”, declararam representantes da empresa. Ainda em relação à produção, o Mapa insistiu que a fábrica foi submetida a fiscalização no ano passado, e laudos atestaram que a empresa não utiliza nenhum glicol, “nem mesmo os aprovados para uso alimentar, como líquidos refrigerantes”.


O que é dimetilglicol?

Dimetilglicol é o nome da substância química encontrada na biópsia renal de Antônio Paulo dos Santos, 61, militar aposentado morto no dia 27 de maio com insuficiência renal em Juiz de Fora. O composto químico é corriqueiramente usado em indústrias como solvente, e não há registros de aplicação da substância como líquido para refrigeração, como esclareceu o professor Luiz Cláudio de Almeida Barbosa, do departamento de Química da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O docente explicou que o dimetilglicol encontrado nos rins do militar não é igual ao dietilenoglicol. A segunda substância foi usada pela Cervejaria Backer nos tanques de refrigeração, e um furo no recipiente provocou a contaminação da bebida alcoólica – 29 pessoas foram intoxicadas pela cerveja entre 2019 e 2020, e 11 delas morreram segundo inquérito da PC.




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